12 de out de 2012

Sobreviventes

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Olhando para trás, é duro acreditar que estejamos vivos até hoje. Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag.

Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em vidros de remédios, portas ou armários, e andávamos de bicicleta sem capacete, sem contar que pedíamos carona.

Bebíamos água direto da mangueira e não da garrafa.

Gastávamos horas construindo carrinhos de rolimã para descer ladeira abaixo e só descobríamos que tínhamos esquecido os freios depois de colidir com alguma árvore.

Saíamos de casa pela manhã e brincávamos o dia inteiro, só voltando quando o Sol se apagava. Ninguém podia nos localizar: não havia telefone celular.

Nós quebramos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados: eram acidentes. Ninguém para culpar, só a nós mesmos.

Nós tivemos brigas e esmurramos uns aos outros e aprendemos a superar isto. Comíamos doces e bebíamos refrigerantes, mas não éramos obesos: estávamos sempre ao ar livre, correndo e brincando.

Compartilhamos garrafas de refrigerante e ninguém morreu por causa disso.

Não tivemos playstations, Nintendo 64, 99 canais a cabo, filmes em vídeo, surround sound, computadores ou Internet: nós tivemos amigos.

Saíamos e nos encontrávamos. Íamos de bicicleta ou caminhávamos até a casa deles e batíamos à porta - imagine tal coisa - sem pedir permissão aos pais, por nós mesmos. Lá fora, no mundo cruel. Sem nenhum responsável. Como fizemos isso?!

Jogos com bolas de meia cheia de pano, comemos minhocas e, embora nos tenham dito que aconteceria, nunca nossos olhos caíram ou as minhocas ficaram vivas na nossa barriga para sempre.

Nos jogos da escola, nem todo mundo fazia parte do time. Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a decepção. Alguns estudantes repetiam o ano!  E não inventavam testes extras.

Éramos responsáveis por nossas ações e arcávamos com as consequências. Não havia ninguém que pudesse resolver isso. A ideia de um pai nos protegendo, se desrespeitássemos alguma regra, era inadmissível: eles protegiam as regras.

O resultado dessa epopeia é que a nossa geração produziu alguns dos melhores compradores de risco, criadores de soluções e inventores. Os últimos 50 anos foram uma explosão de inovações e novas ideias.

Tivemos liberdade, fracassos, sucessos e responsabilidade. Aprendemos a lidar com isso: somos uns sobreviventes.

9 comentários:

  1. Dr. Parsifal. Até o final de 2013 será publicado o livro de memórias?

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  2. Não. Estou com a parte da infância praticamente fechado, mas falta sistematizar muita coisa da chegada à Belém.

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  3. Tenho encontrado esse texto em alguns sites da internet e não sabia que era de sua autoria. Parabéns! identifiquei-me muito com o seu conteúdo.

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    1. Escrevi o texto em 1998 e publiquei em "O Diário do Pará" e na minha página (antes do blog).
      A última vez que procurei havia 693 cópias pela net sem crédito de autoria. Algumas cópias, inclusive, modificadas e com outro título.
      Até a Maitê Proença copiou e publicou na sua coluna na "Época", dizendo que tinha recebido por e-mail, "sem autoria".
      Escrevi à Época e nunca obtive resposta.
      A Net é assim mesmo: depois que você publica não mais controla.

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  4. Quando publicar seu livro de memorias mande um exemplar para o amigo. Abraços.

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  5. Belo texto. Tenho aprendido muito com Sua Excelência ( minha esposa e minha filha também, sempre relato nossa prosa ), verdadeiramente lhe admiro, admiro sua inteligência, sua história, que de tanto eu dialogar com sua Excelência, passei a conhecê-la e admirá-la.
    Meu único "se não" é esse seu viés político, é, nesse aspecto, Vossa Excelência ser mais do mesmo...
    Mas não existe homem perfeito...

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    1. A perfeição, meu caro, é uma característica dos deuses, desde que não sejam aqueles da mitologia grega, que tinham as mesmas fraquezas humanas.
      Mas, como diz o meu amigo Anacleto Soares, o Marques do Curuá, o Paraíso deve ser o lugar mais chato do Universo, pois lá só existe gente perfeita".

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  6. Este texto me faz lembrar de mim mesmo,minha infância,velhos e bons tempos.
    parabens,

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